Ilha da Berlenga
A ilha da Berlenga vista do mar, com o Forte de São João Baptista e o farol.

A Berlenga teve quatro nomes em dois mil anos e ninguém que tenha durado.

Uma rocha a dez quilómetros de Peniche, sobre a qual se escreveu muito e se sabe pouco. Aqui fica o que há — separando o que está documentado, o que é hipótese e o que é lenda.

Como já lhe chamaram Londobris Ilha de Saturno The Burlings Berlenga

documentado

Está escrito nalgum lado antigo, ou saiu do chão numa escavação. Pode discutir-se o que significa; que existe, não.

hipótese

Alguém que estudou o assunto propôs uma leitura e não há como fechá-la. Costuma haver mais do que uma, e cabem todas.

lenda

Contou-se, alguém a escreveu, e ficou. Não aconteceu — ou não se sabe — e mesmo assim explica o nome de sítios que existem.

Os nomes da ilha

Meio quilómetro quadrado de granito, baptizado quatro vezes por gente que nunca lá viveu. Cada nome é de quem passou.

Londobris

Λονδοβρίς, também Landobrix
séc. II d.C.

documentado

É o nome mais antigo de que há registo. Aparece na Geografia de Cláudio Ptolomeu, no século II, quando descreve a Lusitânia, e ainda hoje é assim que a ilha está identificada nas bases de toponímia antiga.

A raiz é pré-romana, provavelmente céltica, e ninguém a sabe traduzir. É o nome que a ilha tinha antes de nós e que já não quer dizer nada a ninguém.

Ilha de Saturno

Saturni insula
geógrafos romanos

documentado a identificação é hipótese

Que havia, no Atlântico ao largo desta costa, uma ilha consagrada a Saturno, está escrito, e lê-se aqui ao lado. Que seja esta ilha já é outra conversa — e é a conversa interessante.

Saturno é o deus do tempo, da idade de ouro e da melancolia; é dele que vem a palavra saturnino. É também o deus que devora os próprios filhos para que nada lhe escape.

Baal-Melqart

culto fenício
I milénio a.C.

hipótese frágil

Lê-se em brochuras e em livros de divulgação que a ilha terá sido lugar sagrado dos fenícios, dedicado a Baal-Melqart. Convém dizê-lo com todas as letras: não há arqueologia que o sustente. O estudo de referência sobre a ocupação antiga da ilha nem sequer o menciona.

Fica aqui porque faz parte do que se diz sobre a Berlenga, não do que se sabe. Neste caso a falta de prova é mais interessante do que a afirmação.

The Burlings

marinheiros ingleses
época moderna

documentado

Nas cartas náuticas inglesas a ilha é the Burlings, corruptela do nome português. É o nome de quem a via do convés, a contorná-la. Dos quatro, é o único que descreve um perigo em vez de um lugar.

A ilha consagrada a Saturno

Rufo Festo Avieno escreve a Ora Maritima no século IV d.C., mas está a copiar roteiros de navegação muito mais antigos, alguns deles cartagineses, de há dois mil e quinhentos anos. Nos versos 161 a 167 aparece isto:

post pelagia est insula
herbarum abundans
adque Saturno sacra.

Mais além, em pleno mar, há uma ilha abundante em ervas e consagrada a Saturno. E é tal a força natural que nela reside que, se alguém dela se aproximar navegando, logo o mar se levanta em redor da ilha, a própria ilha estremece e toda a água salta, tremendo até ao fundo — enquanto o resto do mar permanece quieto como um charco.

o texto existe a ilha é outra questão

Avieno põe esta ilha mesmo antes do promontório da Ofiussa, nome antigo da costa ocidental portuguesa. É daí que vem a identificação com a Berlenga.

Mas mais vale ser honesto: várias das fontes clássicas que falam de «uma ilha» por estas águas podem estar a falar da península de Peniche, que foi ilha em tempos antigos. Parte do mistério da Berlenga pode ser, afinal, sobre Peniche.

O que fica de pé é a descrição. Um sítio onde o mar se levanta só à volta dele e fica liso em todo o resto — quem já esperou três dias em Peniche por uma travessia reconhece a informação. A explicação mudou de nome, agora chama-se corrente, fundo e vento. A observação continua certa.

Rufo Festo Avieno, Ora Maritima, vv. 161–167. Texto latino em domínio público; a tradução é minha. A obra chegou incompleta e o autor trabalhava sobre fontes que talvez nunca tenha visto — a corrente de transmissão faz parte do documento.

Ninguém veio para ficar. Vinha-se parar

A história da Berlenga não está na ilha. Está debaixo de água, do lado abrigado, onde os barcos fundeavam à espera que o tempo virasse.

O fundeadouro

espólio no Museu Municipal de Peniche

documentado

Do fundo da enseada saíram âncoras de pedra de horizonte fenício-púnico, cepos de âncora em chumbo e ânforas romanas de vários tipos — Dressel, Haltern 70, Keay XXV. Três mil anos de gente que ancorou aqui e seguiu viagem.

Cada tipo de ânfora é uma rota e uma data. Juntos não fazem uma povoação: fazem um horário.

O sítio do Moinho

Bugalhão & Lourenço, 2011

a estrutura a função

O estudo de Jacinta Bugalhão e Sandra Lourenço sobre a ocupação romana da ilha descreve, no alto da Berlenga, uma estrutura de planta piramidal com corpos quadrangulares concêntricos. A leitura proposta é a de um farol romano, com paralelo na torre de Campa Torres, em Gijón.

Se estiver certa, o gesto de acender uma luz naquela rocha tem dois mil anos e nunca parou. Farol romano, como hipótese; Farol Duque de Bragança, começado em 1837 e concluído em 1842; e hoje o mesmo feixe, todas as noites, a fazer exactamente a mesma coisa.

Os dois faróis

Raul Brandão, Os Pescadores, 1923

documentado

Brandão volta da pesca ao anoitecer, ao largo do Baleal, e repara numa diferença que mais ninguém registou: o farol da Berlenga pisca, o do Cabo Carvoeiro é fixo. Dois olhos na costa, um que respira e outro que não.

Na mesma página deixa a melhor imagem que alguém escreveu sobre o arquipélago: vistas de longe, pelo recorte e pela cor, parecem duas nuvens pousadas no mar.

Tentativas de habitação

Meia dúzia, em dois mil anos. A duração média não anima.

séc. II d.C.

Ptolomeu regista o nome. Londobris entra na Geografia, entre as ilhas ao largo da Lusitânia. Ninguém a descreve. Apenas se anota que está ali.

1465

D. Afonso V protege a caça na ilha. O documento regula quem pode caçar coelho na Berlenga, e é por isso citado como o primeiro acto de protecção de um território em Portugal. Quatro séculos e meio depois, os descendentes desses coelhos eram a praga que comia as hortas dos faroleiros.

1513–1545

Os monges. Com o apoio da rainha D. Leonor, a Ordem de São Jerónimo instala-se na ilha à procura de solidão e silêncio, e constrói o mosteiro de que ainda há vestígios junto ao carreiro.

Trinta e dois anos depois já lá não estavam. Fome, isolamento, doença, e os assaltos de corsários do Norte de África, que levavam os monges para vender como escravos. A ilha dava-lhes exactamente aquilo que eles tinham ido procurar, e mais nada que o tornasse suportável.

meados do séc. XVII

O Forte de São João Baptista. Levanta-se uma fortaleza sobre um ilhéu ligado à ilha por uma ponte estreita de pedra, para negar o fundeadouro a quem o usasse contra a costa. É a construção que ainda hoje domina a enseada.

1666

O cerco. Uma esquadra espanhola ataca o forte durante a guerra da Restauração. A guarnição, pequeníssima, aguenta vários dias contra uma força incomparavelmente maior, até o forte se perder. É o episódio mais conhecido da ilha e o mais contado — o que quer dizer que convém lê-lo em mais do que um sítio.

1837–1842

O Farol Duque de Bragança. Começado em 1837, concluído em 1842. Pela primeira vez alguém passa a viver na ilha por ofício, e não por fé, castigo ou guerra. A vigília passa a ser um emprego.

1981 e 2011

Reserva natural, depois reserva da biosfera. A ilha é classificada em 1981 e reconhecida pela UNESCO em 2011. Hoje há lotação diária e reserva obrigatória. Pela primeira vez em dois mil anos, quem limita a presença de gente na Berlenga é um regulamento, e não o mar.

Os Passos de D. Leonor

lenda

Conta-se que um noviço do mosteiro da Berlenga, Frei Rodrigo, se apaixonou por uma rapariga da costa chamada Leonor. Todas as noites ela acendia uma luz junto à água e ele atravessava o canal a remar no escuro, na direcção dela. Uma noite o mar não deixou.

Acaba como acabam as histórias do mar, e a parte que interessa vem a seguir: os dois ficaram inscritos na geografia. Há uma laje com o nome dele e um caminho com o nome dela, e é assim que continuam a chamar-se, em cartas, em documentos e nas placas dos trilhos.

  • Laje de Frei Rodrigo
  • Passos de D. Leonor

Repare-se na coincidência dos nomes. Leonor é também o nome da rainha D. Leonor, que apoiou a fundação do mosteiro onde a lenda põe o noviço. E o cerco de 1666 costuma associar-se a outra travessia de mulher, a da noiva do rei a caminho de Lisboa por mar. Mulheres, travessias e água: o motivo repete-se sozinho, sem que ninguém o tenha combinado.

Lenda recolhida por Mariano Calado em Peniche na História e na Lenda e divulgada pela Câmara Municipal de Peniche. Recontada aqui por palavras minhas. Os topónimos são de uso corrente.

Um disco que não é sobre esta ilha

E que, mesmo assim, faz parte desta página.

Em 2022 o colectivo FLEE publicou Leva Leva: Litany of the Portuguese Fishermen, um livro e um disco sobre os cantos de trabalho dos pescadores portugueses — o que se cantava enquanto se puxava a rede. O material de base são três gravações feitas por três etnomusicólogos ao longo de quatro décadas: Armando Leça, por volta de 1939; Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, em 1962; José Alberto Sardinha, em 1982.

A de 1962 é a célebre. Apareceu num filme curto e é hoje o registo que toda a gente conhece. Só que o som não bate certo com a imagem e em nenhum plano se vê alguém a pescar, e há quem defenda que a cena foi montada para a câmara. Os pescadores e filhos de pescadores ouvidos pelo projecto não reconheceram a cantiga: o que eles cantavam não era «leva, leva» mas «arribole, arribole», que quer dizer mais ou menos o mesmo. Um deles resumiu a coisa assim — gravou aquilo nalgum lado, mas não foi aqui.

hipótese A questão continua por resolver, e o livro do projecto tem a decência de a deixar assim.

É por isso que está nesta página. Isto aqui são camadas de registo empilhadas — um geógrafo do século II, um poeta do século IV a copiar roteiros que nunca viu, uma lenda apanhada no século XX, um relatório de escavação — e nenhuma delas é inteiramente segura. Um documento que talvez seja encenação é o exemplo mais limpo do problema: não é não sabermos nada, é sabermos versões a mais e nenhuma delas fechar.

FLEE (Alan Marzo, Olivier Duport, Carl Åhnebrink), Leva Leva: Litany of the Portuguese Fishermen, 2022. Livro e disco, com reinterpretações de João Pais Filipe, Filipa Cordeiro, Nandele, Romain Baudoin e s1m0nc3ll0.

Perguntas que a ilha já ouviu

Posso visitar?

Pode. Não foi convidado, mas pode. As duas coisas coexistem há séculos.

E se o mar estiver mau?

O mar não está mau. Está a exprimir-se. Fique em Peniche e tente outro dia.

Posso levar uma recordação?

Não. Nem pedras, nem plantas, nem conchas. Já se levou daqui demasiada coisa, incluindo pessoas.

Porque é que não posso sair dos trilhos?

Porque a última vez que alguém se instalou onde lhe apetecia acabou em cerco, fome e portões abertos por dentro. Fique no caminho.

Vale a pena ir?

Vale. É precisamente esse o problema dela.

Onde é que isto se lê

Tudo o que está nesta página vem daqui. Se houver divergência entre a página e a fonte, ganha a fonte.

  1. Cláudio Ptolomeu, Geografia, séc. II d.C. — o registo de Londobris. Consultável através das bases de toponímia antiga ToposText e Pleiades.
  2. Rufo Festo Avieno, Ora Maritima, vv. 161–167, séc. IV d.C. Texto latino em domínio público. A obra sobreviveu incompleta.
  3. Jacinta Bugalhão e Sandra Lourenço, «A ocupação romana da ilha da Berlenga», 2011. O estudo de referência sobre o sítio do Moinho e a ocupação antiga da ilha.
  4. Jean-Yves Blot, O potencial arqueológico da ilha Berlenga (CNANS, 2002) e A diacronia do fundeadouro da Berlenga (2006). Sobre o fundeadouro e o espólio subaquático.
  5. Raul Brandão, Os Pescadores, 1923. Domínio público. Os dois faróis, as duas nuvens pousadas no mar, e um capítulo dedicado às Berlengas.
  6. Raul Proença (dir.), Guia de Portugal, vol. II, 1927. Domínio público. Digitalizado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
  7. Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda. Origem da lenda dos Passos de D. Leonor, divulgada pela Câmara Municipal de Peniche.
  8. Projecto LIFE Berlengas e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Estatuto de protecção, espécies, regras de visita e lotação em vigor.
  9. Museu Municipal de Peniche, na Fortaleza de Peniche. Guarda parte do espólio recolhido no fundeadouro da Berlenga.
  10. FLEE, Leva Leva: Litany of the Portuguese Fishermen, 2022. Livro e disco sobre os cantos de trabalho dos pescadores portugueses.