Um disco que não é sobre esta ilha
E que, mesmo assim, faz parte desta página.
Em 2022 o colectivo FLEE publicou
Leva Leva: Litany of the Portuguese Fishermen, um livro e um disco sobre os cantos de trabalho dos pescadores portugueses — o que se
cantava enquanto se puxava a rede. O material de base são três gravações feitas por três
etnomusicólogos ao longo de quatro décadas: Armando Leça, por volta de
1939; Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, em 1962;
José Alberto Sardinha, em 1982.
A de 1962 é a célebre. Apareceu num filme curto e é hoje o registo que toda a gente
conhece. Só que
o som não bate certo com a imagem e em nenhum plano se vê alguém a pescar, e há quem defenda que a cena foi montada para a câmara. Os pescadores e filhos de
pescadores ouvidos pelo projecto não reconheceram a cantiga: o que eles cantavam não era
«leva, leva» mas «arribole, arribole», que quer dizer mais ou menos o mesmo. Um
deles resumiu a coisa assim — gravou aquilo nalgum lado, mas não foi aqui.
hipótese A questão continua por resolver, e o livro
do projecto tem a decência de a deixar assim.
É por isso que está nesta página. Isto aqui são camadas de registo empilhadas — um
geógrafo do século II, um poeta do século IV a copiar roteiros que nunca viu, uma lenda
apanhada no século XX, um relatório de escavação — e nenhuma delas é inteiramente
segura.
Um documento que talvez seja encenação é o exemplo mais limpo do problema: não é não sabermos nada, é sabermos versões a mais e nenhuma delas fechar.
FLEE (Alan Marzo, Olivier Duport, Carl Åhnebrink),
Leva Leva: Litany of the Portuguese Fishermen, 2022. Livro e disco, com
reinterpretações de João Pais Filipe, Filipa Cordeiro, Nandele, Romain Baudoin e
s1m0nc3ll0.